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Onde Moram os Ventos

Onde, afinal, moram os ventos? Esse enigma aparece assim que lemos o título do livro. Em seguida, outro mistério: quem são as criaturas que pairam sobre a cidade, acima de qualquer muro, telha ou pássaro, e exibem – no lugar do rosto – a intrigante forma do dente-de-leão?

O nome científico é Taraxacum officinale, erva de folhas dentadas, útil em aplicações medicinais ou culinárias. Basta uma ondulação no ar, e os dentes-de-leão inundam tudo, enquanto planam como andorinhas na parte mais úmida do céu. Isso quer dizer: antes da história propriamente dita, há o mar sob dentes-de-leão. Assim descrevo a experiência com as ilustrações na abertura da história, já extasiada com o talento de Victor Grizzo. Então a pergunta retorna: “e os ventos, onde moram?”. Assim que ressurge, somos flagrados – de olhos bem abertos – por um repentino lampião.

Nesse instante, há tempos fomos absorvidos pelo imaginário do autor, impresso em arte e texto que se complementam deliciosamente numa dança impactante e genial. Somos levados, através do olhar surpreso do velho faroleiro Eddie, às grandes viagens marítimas do século 15, entre diários de bordo e cartas trocadas por Bartolomeu Dias – sim, o famoso navegador – com uma integrante da família dos ventos. Até Leonardo Da Vinci visitaremos nessa viagem inusitada!

Ao iniciar este registro de leitura, cometi um ato falho: escrevi exigem em vez de exibem ao mencionar o rosto de dente-de-leão. Sabe, minha canção preferida diz “somos criaturas do vento”. Não sei você, mas eu sinto aqui essa identidade miúda, que em pleno vôo vai perdendo a forma, e ainda assim atravessa o que é imenso.

A escrita de Victor Grizzo é uma dessas imensidões. E cheia de detalhes dignos de nota, como ao longe, com uma memória do início do século passado invadindo uma cena, a voz de Carmem Miranda em South American Way: “Ai, ai, ai, ai. É o canto do pregoneiro. Que com sua harmonia traz alegria in South American Way”.

Como artista visual e escritor de mão cheia, Grizzo pinta um vôo que é mergulho, numa aventura íntima extraordinária. Onde moram os ventos é um excelente destino a quem deseja retornar sempre às ondas de paisagens imprevistas e, ufa, respirar fundo num tipo diferente de contentamento.

 

 
Maiara Gouveia

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