Escarniozinhos - Muito Além da Cantiga
Festival Internacional de Artes - Faculdade Sta. Marcelina. 2018, São Paulo - SP.
As canções populares e cantigas de roda são sobreviventes de um tempo “líquido”, fluído e incerto, marcado pela intensa velocidade em que as informações e produções culturais aparecem e desaparecem do nosso cotidiano. São representantes vivas da memória de indivíduos de diferentes gerações e continuam a ser transmitidas em muitas escolas e famílias, fazendo parte do repertorio musical infantil.
Se por um lado estas manifestações musicais oferecem resistência à fluidez da pós-modernidade, por outro perpetuam mensagens que possuem símbolos e conceitos que muitas vezes normatizam condutas e comportamentos. Victor Grizzo, de modo provocador, discute tais questões em sua série de aquarelas Escarniozinhos. O artista se apropria de canções populares e cantigas de roda como “pombinha branca”, “o cravo e a rosa”, “boi da cara preta” e “ciranda cirandinha” e as desconstrói quando inclui elementos imagéticos e linguísticos que não fazem parte do repertório comumente entendido como pertencentes ao universo infantil.
Dentre os muitos agentes (re)produtores da naturalização dos papeis do homem e da mulher na sociedade, podemos afirmar que as canções populares também condicionam a padronização do comportamento de acordo com a heteronormatividade. A apropriação de Victor Grizzo destas manifestações culturais questiona principalmente a naturalização do sujeito “feminino”. Suas personagens são ativas, fortes e até agressivas, adjetivos que tradicionalmente não são associados a esse gênero. Neste sentido, o artista contraria o binarismo masculino/feminino, que coloca os gêneros como extremo opostos.
Em Escarniozinhos manifestações culturais tradicionais são assimiladas e modificadas por discussões contemporâneas. Neste aspecto, a obra de Victor Grizzo é inquietante e inovadora causando estranhamento no observador ao descontruir a imagem de personagens tão consolidados em nosso imaginário.
Mariana Sacon







